Enquanto isso, longe da reforma...

segunda-feira, 2 de novembro de 2009


Sábado (31/10/2009), completaram-se 492 anos da reforma; e cá estamos diante de uma igreja protestante (digo no todo) bem distante dos sonhos reformados.
Muita coisa é estranha ao evangelho na igreja que se diz evangélica. Mas, prefiro me ater (a fim de obedecer ao propósito da categoria do blog) aos problemas da igreja pentecostal – na qual, como já escrevi, vivi por 8 anos.
Para os que não sabem ou ainda têm dúvida, pentecostal é uma “denominação” que as igrejas moldadas pelas doutrinas oriundas do movimento que começou na Rua Azuza, EUA, em 1900, aderiram. Trata-se de um movimento que enfatiza a doutrina da atualidade dos dons do Espírito Santo no homem, principalmente o falar em línguas estranhas (glossolalia) – embora muitos pentecostais não entenderam nem procuram atender as recomendações do Apóstolo Paulo, quanto a este dom. Na real, toda igreja cristã é pentecostal, afinal ninguém confessa que Jesus Cristo é o senhor a não ser pelo Espírito Santo. Quanto aos dons, são muitas as igrejas “não pentecostais” que concebem a ideia “pentecostal”, de serem os dons elementos atuais na igreja de Cristo dos tempos modernos.

Devido à desgraça chamada de movimento neopentecostal, aos poucos vão desaparecendo as origens e os princípios da igreja pentecostal – até a Assembleia de Deus, a maior denominação e uma das primeiras igrejas pentecostais do Brasil, já se “corrompeu”. O fato é que chegamos num tempo em que, ou o movimento pentecostal se declara neopentecostal, aceitando seu fracasso, ou resisti a esta praga e se torna um movimento firme e reflexivo, pensante e consistente; o que dificilmente acontecerá.

A teologia da prosperidade, maior ênfase do movimento neopentecostal, vai corroendo o movimento pentecostal de maneira espantosa. Diga a um pentecostal que na oração ele não precisa fazer uma lista de pedidos a Deus, entre eles “porta de emprego”, “carro novo” e etc., e ele te acusará de incrédulo. Lembro-me que disse a um pastor que na oração não precisamos ficar pedindo coisas a Deus, visto que todas as nossas reais necessidades foram satisfeitas na cruz do calvário com o golpe de vitória da ressurreição de Cristo e ele logo afirmou que eu estava dizendo que não devemos orar, afinal o que seria da oração sem os pedidos de praxe?

As campanhas, métodos alucinógenos e meios de grande arrecadação financeira neopentecostal, já fazem parte das liturgias pentecostais. São campanhas da vitória, da libertação, da porta aberta e muitos, mas muitos outros nomes e fins desejados, enquanto a consciência da graça e da justificação por Jesus – se é que alguns a têm – definha ante as convicções fracas e nas mentes frágeis dos pentecostais. Como os santos católicos, para cada problema os evangélicos têm uma campanha específica, menos a cruz.

As músicas cantadas entre os pentecostais, são, em grande parte, lixo neopentecostalizado. Quando não tratam de um endeusamento do homem, incentivando os crentes a “atraírem”, “trazerem” e a “chamarem a atenção” de Deus, sendo que as Escrituras dizem que cabe a nós buscarmos a Deus enquanto se pode achar de uma maneira genuinamente evangélica, isto é, nas palavras de Jesus, no próximo, ensinam que não devemos aceitar o sofrimento; pobre Jesus crucificado, fosse evangélico teria aceitado a proposta de Pedro de resistir ao sofrimento, negando o caminho e a cruz do calvário – com certeza teria clamado, ou até feito, um milagre.

As pregações caminham na mesma toada das músicas; na verdade são a grande miscelânea de valores pentecostais e neopentecostais. Os pregadores pentecostais viciaram-se na prosperidade neopentecostal, alguns a travestem de “benção de Deus”, outros negam a todo custo, valendo-se de um argumento fajuto: precisamos de dinheiro para viver – como se a prosperidade bíblica tivesse alguma relação com a teologia da prosperidade neopentecostal -, e quem não precisa. Pregador pentecostal é vidrado em milagre; esquecem que milagre, por definição, não pode acontecer a todo instante; esqueceram, se é que alguma vez souberam, do maior milagre que o mundo já viu: Jesus Cristo.

Toda organização humana acontece num sistema, não duvido nem descreio. Entretanto, é um direito de qualquer humano poder escolher em qual sistema quer viver. Existem - bem poucas, mas existem -, igrejas pentecostais reflexivas, que resistem ao sistema neopentecostal de ser; essas têm a minha confiança e o meu apoio. Não por serem certas, ou detentoras da verdade, mas por reconhecerem o sacrifício de Cristo e o lixo que é o movimento neopentecostal.

Por uma igreja na verdade de verdade,

Em Cristo, a verdade absoluta,

Will

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12 Comentários:

Bruno Dias comentou:

vocês se ofendem se eu disser que estou de saco cheio desse discurso? Espero que não...

Kennedy Lucas comentou:

Texto forte como sempre mano! Concordo com você!
É uma pena o que nos tornamos. Liberdades que se tornaram libertinagens. Textos bíblicos interpretados para uso pessoal. Esquecemos a essência do verdadeiro evangelho que é o amor. Amor a Deus acima de tudo e amor ao próximo. Foi isso que Jesus nos deixou. O legado do amor. O maior dom de todos. Infelizmente, pouco se fala sobre amor, sobre amar, em nossos templos. A busca da prosperidade e das "bençãos" tem ofuscado a busca pela cruz, pelo arrependimento, pelo perdão.
Minha esperança é de que Deus esta fazendo. Sempre fez, e agora continua a fazer uma grande obra em sua noiva. Para mudar o mundo, devemos começar mudando o nosso mundo. Ou seja, nós mesmos. Se conseguirmos mudar a nós mesmos, já terá sido um grande passo para a mudança do mundo. :)

Abs!

Will comentou:

Bruno, querido, tb estou de saco cheio desse discurso. O problema é que ele nada mais é do que o retrato mais fiél da igreja pentecostal em tempos atuais... =(
Fico com as palavras de São Paulo: Nada posso contra a verdade, a não ser pela verdade.

triste, né?!

Will comentou:

Kennedy, meu querido irmão e amigo, suas palavras dispensam comentários, apenas aplausos e admiração!

Deus tenha misericórdia de todos nós!

Meire comentou:

É muito triste quando me perguntam se onde congrego é tradicional/pentecostal ou neopentecostal, pois pela sua idade: + ou - 25 anos, ela se enquadra no movimento neopentecostal, o que sugere práticas estranhas à Palavra, mas por outro lado, meu pastor e por tabela os demais obreiros de lá são um povo que zela muito pela palavra.
Tudo isso é muito confuso, o povo se perde por não conhecer o fundamento da sua fé.

Will comentou:

Meire, querida, não existe maior tristeza do que perceber uma igreja totalmente "misturada".
Deus continue exercendo sua misericórdia para conosco.

Antonio Mano comentou:

Concordo com quase 100% do texto. Muito bem elaborado e instrutivo, sem acidez sarcástica, o que em geral, só desagrega.
Mas participo do sentimento do Bruno... Parece-me que as vezes tentamos ajudar-corrigir enfatizando muito o erro, sendo que para dispersar as trevas, basta acender uma pequena luz.

Will comentou:

Querido Antonio,

Antes de tecer minha resposta ao seu comentário, dou-lhe as boas-vindas.

Entendo a crítica do Bruno, bem como sua concordância; entretanto, não nos é permitido a falta com o dever de protestar e, como sequência fundamental, oferecer alternativas.

Bem que eu queria não mais me sentir constrangido a postar sobre a igreja brasileira, mas não posso. Parafraseando o apóstolo de Tarso: me é imposta esta obrigação. Muitos dos que por aqui passam, talvez se satisfariam com protestos contra a ICAR ou qualquer outro movimento considerado por nós, os evangélicos-cheios-de-verdade, como hereges e/ou desviados da verdade. Mas não posso fechar os olhos ante a crise sérissima que passa a igreja evangélica brasileira.

É diante de momentos assim que imagino o quanto era amargo aos profetas, denunciar a torpeza e o desvio do seu próprio povo. Dói em mim, querido. Porém, os protestos dos profetas nada mais eram do que o ressoar do coração de Deus - com muito amor o faziam, portanto.

Minhas críticas são apontamentos de um revoltado cristão, que não aguenta mais tanto desvio e mentira entre aqueles que, na teoria, são de Cristo. Não posso deixar de, com meus singelos "gritos", protestar. Quando o fizer, com certeza, perderia muitas noites de sono.

Salve-se quem puder.

Abços!

Antonio Mano comentou:

Meu brother Will...

"não nos é permitido a falta com o dever de protestar e, como sequência fundamental, oferecer alternativas."

Aqui finalizamos divergências sobre críticas: "como sequência fundamental, oferecer alternativas".

Quando a crítica vem com esse teor, ela agrega. Felizmente, é o seu caso. Parabéns.
Talvez o que moveu o comentário do Bruno e a minha concordância é a tão costumeira crítica pela crítica vista em vários outros blogs.

Abraço.

Will comentou:

Obrigado, brother!

Então, minha alternativa é: Igreja, volte ao evangelho genuíno de Jesus. Revolucione. Quebre paradigmas. Rasgue estatutos. Rompa costumes. Mas volte ao evangelho.

Abços fraternos!

Walter Cruz comentou:

Oi Will! Diria que concordo com o espírito geral dos comentários do Bruno e do Antonio Mano!

No mais, gostei do seu texto. É difícil se decepcionar sem deixar-se amargar, o é exatamente o seu caso. Eu diria que textos amargurados contra a religião não surtem efeitos. Ela é uma potestade poderosa que se alimenta da guerra contra ela!

Sigamos os caminhos simples de Jesus, com esperança sempre! E não nos cansemos de fazer o bem!

Will comentou:

Walter,

Seja bem-vindo!

Concordo com seu comentário. Só conheço uma arma eficiente contra a religião/religiosidade/institucionalizada: o evangelho de Jesus. Portanto, ergamos a bandeira da graça do evangelho do amor.

Abços!

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